Quando estava quase a não saber o que fazer na vida até morrer, resolveu construir um túnel. Passaria metade do tempo que lhe restava a construí-lo e a outra metade a percorrê-lo, para ser simétrico. Como não sabia exactamente quanto tempo lhe restava e a conta tinha de ser certa, marcou uma data para morrer, avaliada aquém da sua esperança de vida, para não haver falhas e ser tudo simétrico. Feitas as contas ao tempo, bem dividido e bem simétrico, chamou um amigo que costumava virar as páginas das partituras aos pianistas nos concertos, e pediu-lhe que arranjasse um relógio e calendários, tantos quantos os anos que calculara, com os dias impressos em folhas grandes.
Morrer era fácil: bastaria chegar ao fim do túnel e sair.
O amigo veio com os calendários. Foram os dois para a sala, e atiraram tudo o que lá havia pela janela, até restar apenas uma cadeira. Não sujaram nem desarrumaram a rua, porque os pombos vieram e comeram tudo. Colocaram a cadeira voltada para a janela, no meio da sala, para ser simétrico. Penduraram o relógio e os calendários na parede, de cada um dos lados da janela. Abriram a janela.
O amigo não era simétrico porque era estrábico do olho esquerdo. Ninguém sabia, porque aparecia sempre nos concertos de perfil, voltando o lado do olho normal para o público. Nos dias dos concertos para dois pianos, se lhe calhava o pianista que fica do lado direito do palco, faltava. Como o propósito deste, na vida, até morrer, era esconder que tinha um olho anormal, fazia tudo de perfil, sem se importar com as simetrias.
Sentou-se na cadeira e começou a construir o túnel. O amigo encostou-se à parede e começou a virar as folhas dos calendários, como nos concertos, mas sem música e em pé.
O túnel não era escavado no chão. Estendia-se horizontalmente, no ar, alicerçando-se na sua testa, saía pela janela, dava a volta a tudo o que existia do lado de fora da mesma, fazia o caminho inverso e terminava junto à sua entrada. Era de secção quadrangular, constituído em aparelho isódomo, de blocos de calcário branco, paralelepipédicos, polidos, de arestas boleadas, dispostos simetricamente. Era de tal forma hermético, que seria impossível estabelecer qualquer comunicação com o exterior, longe de qualquer luz, som, cheiro, ... Era baixo e estreito, mas com espaço suficiente para que coubesse deitado e pudesse rastejar dentro dele. As paredes pouco espessas, mas robustas.
Quando acabou de construir o túnel, entrou para dentro dele, e começou a percorrê-lo, rastejando, em frente, a única direcção possível. Movia-se contra a pedra dura, no escuro e no silêncio, envolto por aquela atmosfera neutra. Do lado de fora do túnel, o Universo era até bastante animado nas suas várias dimensões, com imensa coisa a mexer e a soar. Dentro do túnel, estava longe de tudo isso, à distância da pouca espessura das suas paredes. Imaginava-o assim, e sentia a angústia da privação. Sem saber, gostava dessa angústia, que era a razão de ser da sua viagem, o seu princípio e fim. Era esta uma grande viagem em clausura, em que se sai para muito longe, mas é como se não se saísse do mesmo sítio.
O amigo continuava a virar as folhas do calendário, no compasso silencioso do tempo.
Ao fim de muitos anos, quando estava quase a terminar a viagem, chegar ao fim do túnel, sair, cair para dentro de si mesmo sentado na cadeira e aí morrer, entrou um pombo pela janela e bicou o olho normal do amigo. Este cegou e ficou a sangrar. O amigo arrancou várias páginas do calendário, para limpar o sangue, e, em angústia, atirou-se de frente, pela janela, por não saber de que perfil ia passar a viver o resto da sua vida. Deixou de haver quem virasse as folhas do calendário, que já perdera dias, que estavam agora amarrotados, ensanguentados, no chão da sala. Vieram mais pombos, comeram esses dias e os que ainda estavam na parede, e foram embora.
Assim, dentro do túnel, perdeu a noção do tempo. E sem saber quanto deste lhe restava, não podia dali sair e morrer simetricamente, em relação ao dia em que iniciara a viagem. O tempo foi passando e nunca mais saiu do túnel.
Esqueceu-se de morrer.
sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
domingo, 1 de Novembro de 2009
quinta-feira, 23 de Julho de 2009
As perspectivas
Os pombos quando voam, podem ver, lá do alto onde eles andam a voar, assim mesmo à pombo, os decotes das meninas que usam vestidos decotados. As lagatixas, se forem a passar no chão, e levantarem a cabeça reptilianamente, podem ver o que está por baixo dos vestidos curtos que os pombos não vêm. Se as meninas, ao olharem para os pombos, sem querer, pisarem as lagartixas e as esborracharem, ficam com os sapatos todos sujos. Baixam-se para os limpar e quem lhes vê o decote sou eu. Tu que me esperas do outro lado da rua, vês o que está por baixo.
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Viagens: instantes eróticos.
sábado, 30 de Maio de 2009
Os gritos
Fizera o teste da apalpação dos desejos e descobrira o que mais temia: tinha um tumor de gritos. Os gritos andaram-lhe estes anos todos a fugir da boca e acumular-se, todos espremidos e amarfanhados, num tumor que lhe crescia no desejo de dentro.
Quis então gritar, muito, mas o grito fugiu-he para o tumor que subitamente cresceu, de tal forma, que o desejo passou de dentro para fora.
Não rebentou. Ficara como uma enorme bola presa sobre a cabeça, tansparente. Podiam ver-se os gritos todos que ela continha, comprimidos, trémulos, calados. Era uma porcaria. Era como se tivesse o estômago fora do corpo e aí se pudesse observar a sua digestão.
Tentou meter o desejo outra vez para dentro, mas não cabia. Tentou escondê-lo com o chapéu, mas mais valia tentar disfarçá-lo, fazendo de conta que era ele próprio um chapéu. Seria sempre um chapéu esquisito e nojento, como seria qualquer chapéu que se assemelhasse a um estômago a fazer a digestão... Lembrou-se que nunca tinha visto nenhum, e que assim, não poderia enganar ninguém.
Tinha de sair de casa, para continuar com a vidinha. E lá foi, rua abaixo, com o desejo ao léu. Balançava-lhe sobre a cabeça aquela estranha trouxa cheia de gritos. Era realmente uma vergonha, pensava, toda a gente, agora, poder ver o seu desejo e o que tinha dentro. Mas lá continuou, na vaga esperança que os seus gritos, dentro da bola transparente do desejo, se pudessem confundir no meio de todos os outros que as outras pessoas à volta iam deitado para fora.
Mas isso era muito difícil, porque os gritos não ficavam muito tempo ao pé das pessoas. Mal elas os deitavam para fora, desvaneciam-se e, como propulsores, faziam com que quem gritava fosse subindo no ar. Quanto mais gritos deitasse, e quanto maiores fossem, mais quem gritava subia.
Então, a rua estava cheia de pessoas que andavam em difentes alturas. Umas mais acima, outras mais abaixo. Outros muito lá em cima, onde os pombos voam. Algumas, que se via que já não gritavam há muito tempo, iam andando a meia altura, e os seus passos lentos e arrastados que pisavam as cabeças de muitos outros que estavam por baixo, não deixavam que estes subissem. Esses pouco ou nada gritavam. E depois ele, ao nível do chão, aparentemente sozinho, pelo menos àquela hora.
Não. Ninguém ia reparar no seu desejo, pois todos andavam em planos mais altos.
Foi quando estava quase a ser feliz com esta ideia, que alguém que andava num plano exactamente por cima da sua cabeça tropeçou no seu desejo. Este rebentou-se com grande estrondo e todos os gritos que tinha dentro saíram com uma força de tal forma grandiosa que arrastou, misturando-se com todos os outros gritos das pessoas, mesmo aqueles que ainda não tinham saído. A massa de gritos levou consigo todas as pessoas para onde nunca alguém tivera estado, lá em cima, muito alto, tão alto que não se não se podia avistar, nem mesmo os pombos.
E a rua ficou deserta.
Quis então gritar, muito, mas o grito fugiu-he para o tumor que subitamente cresceu, de tal forma, que o desejo passou de dentro para fora.
Não rebentou. Ficara como uma enorme bola presa sobre a cabeça, tansparente. Podiam ver-se os gritos todos que ela continha, comprimidos, trémulos, calados. Era uma porcaria. Era como se tivesse o estômago fora do corpo e aí se pudesse observar a sua digestão.
Tentou meter o desejo outra vez para dentro, mas não cabia. Tentou escondê-lo com o chapéu, mas mais valia tentar disfarçá-lo, fazendo de conta que era ele próprio um chapéu. Seria sempre um chapéu esquisito e nojento, como seria qualquer chapéu que se assemelhasse a um estômago a fazer a digestão... Lembrou-se que nunca tinha visto nenhum, e que assim, não poderia enganar ninguém.
Tinha de sair de casa, para continuar com a vidinha. E lá foi, rua abaixo, com o desejo ao léu. Balançava-lhe sobre a cabeça aquela estranha trouxa cheia de gritos. Era realmente uma vergonha, pensava, toda a gente, agora, poder ver o seu desejo e o que tinha dentro. Mas lá continuou, na vaga esperança que os seus gritos, dentro da bola transparente do desejo, se pudessem confundir no meio de todos os outros que as outras pessoas à volta iam deitado para fora.
Mas isso era muito difícil, porque os gritos não ficavam muito tempo ao pé das pessoas. Mal elas os deitavam para fora, desvaneciam-se e, como propulsores, faziam com que quem gritava fosse subindo no ar. Quanto mais gritos deitasse, e quanto maiores fossem, mais quem gritava subia.
Então, a rua estava cheia de pessoas que andavam em difentes alturas. Umas mais acima, outras mais abaixo. Outros muito lá em cima, onde os pombos voam. Algumas, que se via que já não gritavam há muito tempo, iam andando a meia altura, e os seus passos lentos e arrastados que pisavam as cabeças de muitos outros que estavam por baixo, não deixavam que estes subissem. Esses pouco ou nada gritavam. E depois ele, ao nível do chão, aparentemente sozinho, pelo menos àquela hora.
Não. Ninguém ia reparar no seu desejo, pois todos andavam em planos mais altos.
Foi quando estava quase a ser feliz com esta ideia, que alguém que andava num plano exactamente por cima da sua cabeça tropeçou no seu desejo. Este rebentou-se com grande estrondo e todos os gritos que tinha dentro saíram com uma força de tal forma grandiosa que arrastou, misturando-se com todos os outros gritos das pessoas, mesmo aqueles que ainda não tinham saído. A massa de gritos levou consigo todas as pessoas para onde nunca alguém tivera estado, lá em cima, muito alto, tão alto que não se não se podia avistar, nem mesmo os pombos.
E a rua ficou deserta.
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Metamorfoses
quinta-feira, 28 de Maio de 2009
O tempo
Se tivesse vivido em outras épocas e se tu também lá tivesses estado, reconhecer-te-ia em todas, se acaso nos cruzássemos, pois viverias sempre fora do tempo.
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Vertigens
sábado, 23 de Maio de 2009
A distracção
- Eh! Não me estás a ligar nenhuma! Estou a falar... Não me ouviste?
- Desculpa, estava demasiado ocupado a pensar em ti, para te dar atenção.
- Desculpa, estava demasiado ocupado a pensar em ti, para te dar atenção.
quarta-feira, 6 de Maio de 2009
The abyss
JOHN - Excuse me. I couldn't avoid observing that you have a dellicious deep dark velvet vertigo, and I would be very pleased if you let me lick it.
Abyss - Sure. But first you have to wipe the silence from your mouth. It's too thick and harsh.
JOHN - I can only do that by biting that soft juicy echo of my mind that you have down there. Only it's sweet fluid can melt it. Would you throw me it, please?
Abyss - There it goes. Don't swallow it.
JOHN - Thank you. I'm done. Can I lick now?
Abyss - No. I have changed my mind. I want something more. I want to see your words naked. Undress and put them all lined up at my edge with their genitals turned in my direction.
JOHN - Like this?
Abyss - Nice... What a beautiful sight. Now, I want your words to copulate all together. I want to see a trully verbal orgy.
(to be continued)
Abyss - Sure. But first you have to wipe the silence from your mouth. It's too thick and harsh.
JOHN - I can only do that by biting that soft juicy echo of my mind that you have down there. Only it's sweet fluid can melt it. Would you throw me it, please?
Abyss - There it goes. Don't swallow it.
JOHN - Thank you. I'm done. Can I lick now?
Abyss - No. I have changed my mind. I want something more. I want to see your words naked. Undress and put them all lined up at my edge with their genitals turned in my direction.
JOHN - Like this?
Abyss - Nice... What a beautiful sight. Now, I want your words to copulate all together. I want to see a trully verbal orgy.
(to be continued)
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